Artemis Crespo

"Pago a minha faculdade de Engenharia do Petróleo, com muito orgulho, com as vendas dos meus docinhos. Estou na reta final para conquistar o meu sonhado diploma, só preciso de um estágio!"

Artemis Anig de Souza Crespo, 23 anos, Campos dos Goytacazes, RJ.


"Tenho 23 anos e uma dívida de 62 mil reais. Esse é o valor, com juros acumulados, do financiamento estudantil que fiz para pagar a minha faculdade de Engenharia do Petróleo. É muito difícil dormir e acordar todos os dias com uma preocupação desse tamanho, sendo que a minha família inteira é honesta e em nenhum momento teve o nome sujo. Me pergunto: como vou resolver? A resposta está no reflexo do espelho: com o meu trabalho. Já aprendi que não tem quem faça por mim, eu sou a única pessoa que precisa resolver. E garanto que não vai ser agora, na reta final para conquistar o meu diploma, que vou desistir.


Para contar como cheguei até aqui, preciso dizer de onde eu venho. Sou a filha mais velha, tenho um irmão recém dispensando do exército, minha mãe, que é do lar, e meu pai, que está há dois anos em uma situação complicada com a empresa que ele trabalhava porque declararam falência. Já eu, comecei a trabalhar cedo, mas nunca tive a carteira assinada. Sou autônoma. Comecei ajudando a minha mãe com o trabalho de sacoleira, depois me tornei professora de inglês para cursinhos e, há seis anos, abri o meu próprio negócio: vender docinhos para festas. O ‘Doçuras da Artemis’ é a minha única fonte de renda. Sempre me dei muito bem trabalhando com o público.


Também sou, desde menina, super estudiosa e fã de matemática. No primeiro ano do ensino médio, em 2011, por exemplo, fui uma das finalistas das Olimpíadas de Matemática estudantil. Em 2013, no meu terceiro ano, ganhei um sorteio e pude escolher um dos muitos cursos profissionalizantes que já fiz. Dentre muitas opções, escolhi o curso de 'petróleo e gás natural', porque tinha como um de seus principais temas a ‘Segurança do Trabalho’. Foi aí que simplesmente me apaixonei pela área do petróleo e decidi o que iria estudar na faculdade! Essa é a minha área da matemática, a minha Engenharia! A questão é que o curso que eu queria só estava disponível em instituições particulares, ou seja, isso exigia um baita investimento que eu não tinha condições alguma de bancar.


É aqui que começa a realização do meu grande sonho da faculdade e também o meu maior pesadelo financeiro. No ano de 2014, comecei meus estudos de Engenharia do Petróleo numa universidade particular, através do programa de financiamento do Ministério da Educação do Brasil, o FIES - Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior. O problema é que aconteceu um super mal entendido e, o financiamento que me auxiliaria até o fim dos estudos, me deixou sem apoio na metade do curso. 


É uma história complicada, vou tentar resumir: uma pessoa da faculdade foi me auxiliar no preenchimento do formulário para o financiamento, mas confundiu os cálculos. Eu e minha mãe, leigas no assunto, respondiamos às perguntas e ela preenchia o formulário. Para a minha infelicidade, ao invés dela solicitar o financiamento para 10 períodos, referentes a 5 anos de curso, ela anotou apenas 5. E, no fim: o financiamento foi aprovado para apenas 5 períodos. Ou seja: imagine o meu susto quando eu fui renovar a matrícula para o sexto período e descobri que o meu financiamento tinha acabado? Precisei dar um jeito de pagar a faculdade sozinha a partir daí.


É aqui que entra a renda que fez e continua fazendo toda a diferença na minha história: a venda dos meus doces! Eu já trabalhava firme na produção de docinhos para bancar meus custos extras, como passagens e material da faculdade, mas, a partir do quinto período, isso se tornou minha única possibilidade de continuar meus estudos. Tive que escolher entre pagar a dívida do FIES ou pagar os próximos semestres de curso. Escolhi as mensalidades da faculdade e acumulei juros na dívida que continua pendente.


De domingo a domingo, das 6h às 22h, passei a produzir e vender docinhos na faculdade, sinais de trânsito, ônibus, centro da cidade, em frente à minha casa e nas redes sociais. Sem nunca duvidar do potencial do meu negócio e da dignidade do meu trabalho, cheguei ainda mais longe: comecei a receber grandes encomendas para todos os tipos de eventos e datas comemorativas. Lembra do meu talento de lidar com o público? Isso me abriu boas oportunidades! Mas o contato com as pessoas também me trouxe outros tantos desafios.


Já perdi as contas de quantos julgamentos precisei enfrentar. Me disseram, por exemplo, que eu deveria ter vergonha de vender meus docinhos. Ou que eu não chegaria a lugar algum com esse tipo de trabalho. Também já me alegaram que fazer doces não é trabalho, é só um bico pra quem não deu certo na vida ou não tem profissão ou faculdade. Uma das piores coisas que já ouvi foi que o meu trabalho é vergonhoso, como se eu estivesse pedindo esmola... Acredita? Pois é, eu também não. Mas já aprendi que, infelizmente, muitas pessoas são más e precisam diminuir os outros para se sentirem superiores. Não me abalo mais.


Sou jovem, mas já sei da minha força. Também sei da importância do meu trabalho como doceira. E me orgulho muito disso! Se não fossem essas vendas, eu não estaria estudando o que eu amo, aliás teria trancado a faculdade no meio do curso! Veja bem, eu continuei! 


Trabalho para estudar, literalmente. E por conta da pandemia, minhas vendas diminuíram muito. Me falta só um semestre, está tudo muito difícil, não sei como vou conseguir chegar até o fim. Mas sei o que eu preciso urgentemente: de um estágio! Essa é, inclusive, uma das matérias pendentes para eu conquistar o diploma. O que mais me preocupa é como conseguir uma oportunidade na área. Todos que eu conheço conseguiram fazer estágio no próprio trabalho ou tiveram ajuda de algum conhecido. Eu não tenho com quem contar. Os cargos estão cada vez mais concorridos e as especialidades estão cada vez mais difíceis. 


Apesar de tudo, eu sigo confiante. Se você perguntar quem eu sou, vou te responder com muito orgulho: sou doceira, professora de inglês e engenheira do petróleo. Trabalho com dignidade para conquistar meus objetivos. Me falta a bendita experiência, mas jamais faltará força, determinação e persistência. Minhas qualidades valem muito e vão além do currículo, isso eu posso garantir. Eu só preciso de uma porta aberta: me ajude a conquistar o meu diploma tão sonhado e merecido! Busco estágio ou trabalho na área de engenharia.


Em entrevista para Lígia Scalise.

whatsapp
whatsapp

Grupos de Networking

Grátis
PROJETOS
Newsletter

Receba as novidades da CH

  • Branca Ícone LinkedIn
  • Branco Facebook Ícone
  • Branca Ícone Instagram
  • Branca ícone do YouTube

© 2017-2020 Associação Civil Cruzando Histórias - 30.745.930/0001-35

Rua Barão de Itapetininga, 255 sala 605 - República, São Paulo -SP

Fale Conosco