"Quero fazer só um pedido: avalie meu currículo e minhas experiências antes de questionar a minha vida pessoal. Eu sou mãe, mas também sou uma profissional muito competente!"

Janaina Moraes, 32 anos, Curitiba, Brasil.

 

Desde que engravidei eu passei a enfrentar um julgamento no mercado de trabalho. Qual é a minha rotina com o meu bebê, quem vai cuidar dele, como vou me organizar para trabalhar, por exemplo, são as principais perguntas na entrevista. Sinto que os recrutadores olham para as questões da maternidade e perdem o foco no meu currículo e experiências profissionais.

Queria que eles entendessem que eu sou uma pessoa, mãe e profissional responsável. Se estou me candidatando para uma vaga é porque eu já organizei com o meu marido como vamos cuidar da rotina do nosso filho. Eu preciso trabalhar justamente porque tenho um filho, mas, acontece o inverso, porque eu tenho um filho eu não consigo um emprego.

 

Talvez se os recrutadores soubessem do meu contexto atual, da situação difícil que estou enfrentando, eles entenderiam o quanto um trabalho é a salvação de boa parte dos meus problemas. Hoje eu tenho uma rotina insana. Eu e meu marido sobrevivemos com bicos, economizando cada centavo, contando com a ajuda da família. Eu pego trabalhos que viram a noite, meu marido também faz bico no que aparecer. Me culpo por não ter tempo para curtir o meu bebê, mas, quando estou em casa, tenho que procurar emprego. Empurro o carrinho com os pés e fico com as mãos no computador.

"Você é uma mulher guerreira", escuto das pessoas que me amam. Eu sei que elas me enxergam a minha garra com bons olhos e querem me consolar, mas, a verdade, é que não recebo isso como elogio. Eu vivo nessa luta porque não tenho outra escolha. Eu não vou desistir de procurar trabalho porque eu quero oferecer uma vida melhor pra minha família, mas estou uma guerreira cansada.

 

A gravidez aconteceu no susto. Descobri já no terceiro mês, tomando anticoncepcional, em novembro de 2018. Era meu segundo ano morando no México, e o quinto fora do Brasil. Estava vivendo a minha melhor fase no exterior, comemorando um emprego fixo, com a chance de ter um visto de trabalho. Iria assumir a vaga de coordenadora na secretária de cultura. Isso era uma vitória pra mim. Só eu sei o tanto de perrengue que vivi antes. Saí do Brasil para estudar Cinema em Cuba e vendia pão para ter o mínimo de grana. Quando terminei a faculdade não tinha dinheiro para voltar para o Brasil, mas consegui comprar uma passagem para o México. Lá, aos poucos, refiz minha vida, arranjei trabalhos temporários e conheci meu namorado, o Beto.

 

Estava vivendo o meu momento de fase boa e descobri que estava grávida. Na teoria parecia que a gestação não seria um empecilho, mas, a realidade foi outra. No fim daquele ano vim para o Brasil fazer a documentação para o tal visto de trabalho, aproveitei e apresentei o Beto para minha família. Nossa alegria passou rápido, porque no dia 03/01/19 eu recebi um e-mail da minha futura chefe dizendo que meu processo de contratação havia sido cancelado. Meu mundo caiu e tivemos que agir rápido.

           

O pai do meu filho voltou sozinho para o México, entregou meu apartamento, resolveu tudo por lá enquanto eu atualizava minha documentação e fazia o pré-natal do nosso bebê por aqui. Eu estava apavorada, mas tive todo apoio da minha irmã que me deu teto e comida. Não sei o que seria de mim sem isso. Até tentei me candidatar para vagas de emprego fixo, mas, grávida, ninguém me dava chance. Foi então que comecei a fazer contatos e consegui trabalhos em feiras, eventos, gravações e produções de audiovisual. Tudo no esquema "freelancer". Trabalhei assim até o dia anterior ao meu parto.

           

"Meu bebê está com um mês e eu já estou pronta para voltar a trabalhar. Eu preciso dessa oportunidade", respondi para um convite de trabalho. Eu sei que parece loucura, mas a necessidade falou mais alto. Esse foi o dia mais difícil da minha vida, fui trabalhar, mas chorei muito de culpa.

 

É assim até hoje. Meu coração fica partido muitas vezes que saio e deixo meu bebê com a minha irmã ou vizinha. Temos aluguel, comida, contas, fralda, tudo para pagar. E eu sou a fonte de renda principal em casa porque meu marido é enfermeiro no México, mas, aqui, não pode exercer sua profissão. Então ele trabalha no bico que aparece também.

 

"O agora é uma fase difícil, mas vai passar. Logo teremos emprego e salário fixos e vamos conseguir relaxar e curtir nossa família", me agarro nesse pensamento para me manter otimista. E garanto que o que depender de mim eu faço. Sou comunicóloga e produtora de conteúdo para audiovisual. Busco uma vaga fixa na área de criação e comunicação. Quero fazer as pessoas entenderem que, além de uma mãe, eu sou uma profissional apaixonada e dedicada. Eu só preciso de uma mãe estendida, uma chance, o resto eu garanto que dou conta! A maternidade não é fácil, mas nunca me senti tão forte para lutar por uma vida melhor para minha família.

Em entrevista para Ligia Scalise

whatsapp
whatsapp

Grupos de Networking

Grátis
PROJETOS
Newsletter

Receba as novidades da CH

  • Branca Ícone LinkedIn
  • Branco Facebook Ícone
  • Branca Ícone Instagram
  • Branca ícone do YouTube

© 2017-2020 Associação Civil Cruzando Histórias - 30.745.930/0001-35

Fale Conosco