Sueli de Carvalho de Amorim

“Eu bato de porta em porta pedindo emprego. Tem gente que só pede para deixar o currículo na caixinha de cartas. Fico me perguntando será que ela vai olhar para um papel se nem olhou para mim? Eu não quero mais me sentir invisível e vim contar minha história!”


Sueli de Carvalho de Amorim, 43 anos, Barueri, SP.


“Eu passo o dia inteirinho entregando currículos. Saio de casa cedo e vou distribuindo no comércio e nas agências de emprego. Meu último trabalho foi como estoquista, passei três anos e cinco meses conferindo mercadoria, cuidando da separação, abastecimento e etiquetagem do estoque. Em abril, no começo da pandemia, fui mandada embora. 


O trabalho que eu tinha era bem puxado, com horas extras, sem horário certo pra entrar. Mas eu nunca reclamei, faltei ou fiz corpo mole porque eu sei que não há nada pior nesse mundo do que ficar desempregada. Estou recebendo as últimas parcelas do meu seguro desemprego e o desespero já está batendo à minha porta.


Sei que a situação do desemprego é difícil pra todo mundo, mas nada me deixa mais triste do que quando pergunto se estão recebendo currículo e escuto: “deixe seu currículo na caixinha de correspondência”. As pessoas falam sem olhar para a minha cara. Me sinto humilhada como se eu estivesse pedindo esmola. Eu só quero trabalhar! Ao longo da minha vida eu aprendi que a cidade grande oferece muitas oportunidades, mas também maltrata muito porque faz a gente se sentir sozinha e invisível.


Nasci no Piauí, em Campo do Buriti, interiorzinho do sertão nordestino. Pra ter o que comer eu comecei a trabalhar na roça, ajudando meus pais na plantação e colheita, aos oito anos. Ao lado dos meus irmãos, somos quatro mulheres e um homem, tínhamos que acordar e trabalhar. Estudei até a 5° série porque meus pais preferiam que a gente trabalhasse do que fosse à escola. Eu não os culpo, sei que era a mentalidade da nossa realidade. Perdi minha mãe cedo para um câncer e meu pai me mandou acompanhar e cuidar do meu avô no seu tratamento médico em São Paulo, onde já morava o meu irmão. 


Aos 18 anos eu desembarquei na cidade grande e achava que sair do sertão ia me trazer liberdade. Mas foi completamente diferente. Em São Paulo, eu ficava trancada em casa, com medo de ir ao supermercado sem conseguir voltar. Me sentia ninguém no meio de todo mundo. Me arrependi no dia seguinte que cheguei, mas cuidar do meu avô era o que eu tinha que fazer. Depois de alguns anos, ele faleceu. “E agora?”, me perguntei. Decidi continuar e procurar serviço.


Uma tia trabalhava de bico numa fábrica de plástico e me levou junto. Quando ganhei o meu primeiro dinheirinho, R$ 30 por um mês de trabalho, eu entendi que o único jeito de me sentir alguém é trabalhando! Decidi que nunca mais iria depender de ninguém porque enquanto tenho saúde eu posso trabalhar! Uma outra tia me ajudou muito e conseguiu um emprego de babá para mim. Passei três anos cuidando de uma criança e morando na casa dessa família. 


Só saí de lá porque arrumei um serviço de copeira, em um escritório de arquitetura, perto da avenida Paulista. Sempre achei tão chique ver as pessoas trabalhando em escritório, todas bem vestidas e com cara de inteligentes, que imaginei que ali poderia aprender um pouco sobre computadores também! Trabalhei cinco anos sem registro e sem futuro. O dono falou que eu perderia muito dinheiro se fosse registrada. Eu, bestinha, acreditei. Saí sem aprender a usar computador como eu gostaria, sem ganhar um centavo pela falta do registro, mas aprendi a lição.


Meu irmão me deu teto por um tempo até que eu consegui alugar um cantinho só pra mim. Nesse tempo também fiz supletivo e arranjei um emprego no estoque de uma loja. Trabalhei dois anos registrada, passei do estoque para as vendas e descobri que me dou bem com atendimento porque tenho bastante paciência. Em paralelo, comprei um barraquinho no morro e fui morar sozinha. Em 2011 consegui um emprego numa empresa de medicamentos na área de estoque e fiquei até 2016, antes do último emprego como estoquista na empresa de confecção.


Estou contando tudo isso porque eu quero muito que as empresas saibam o quanto trabalhar é a coisa mais importante da minha vida. Eu não tenho ninguém para pedir ajudar, aliás, sou a pessoa que geralmente ajuda meu pai doente e minha irmã, que cuida do meu pai. Agora estamos todos numa situação difícil, mas quando eu percebo que estou triste, eu dou um jeito de sair para entregar currículo. Trabalhar é o que me faz me sentir viva.


Eu gostaria muito de ter um serviço de segunda a sexta-feira, não escolho a empresa, só quero poder ter tranquilidade de seguir com a minha vida, com salário garantido, ajudar minha família, ter um dinheirinho sobrando pra comprar sapatos e ir para academia. O que eu mais amo fazer é ir para a academia! Eu gosto muito do clima de pessoas felizes e de cuidar de mim.


A parte mais difícil da minha vida eu acho que já superei, quando cheguei em São Paulo e era dependente das pessoas. Aprendi a me virar sozinha, ser forte, e saber que eu posso conquistar meu canto, pagar minhas contas a partir do meu trabalho bem feito. Meu próximo plano é vender a casinha onde eu moro e comprar outra num lugar mais plano. É que para chegar até em casa tem que subir um escadão. E, com a idade avançando, isso vai ficar cada vez mais difícil.


Procuro colocar na minha cabeça que tenho que tenho que ter fé, correr atrás e acreditar que uma hora vai acontecer. Coloco meus currículos debaixo de porta de comércio e agências de emprego. Não sei se vão pegar ou se vão jogar fora. De uns tempos para cá comecei a escrever também uma mensagem à mão que diz: “Socorro, por favor, ajude-me”. Não sei se vão ler, mas eu sei que Deus olha por todos nós.


Estou muito emocionada por receber esse convite para contar a minha história. Vocês me fizeram sentir que eu não sou invisível! Por isso, eu quero dizer: estou disponível, sou muito esforçada, dedicada e responsável. Tenho certeza de que não vou decepcionar quem me der uma oportunidade. Busco emprego como auxiliar operacional de logística, estoquista e auxiliar de distribuição. Também estou aberta para aprender com outras oportunidades! Por favor, me ajude!”.


Em entrevista para Lígia Scalise.

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