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Bianca Blues

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São Paulo

São Paulo

Objetivo Profissional

Objetivo Profissional

Ser roteirista no mercado do audiovisual brasileiro.

 

Atuar também na área da pesquisa de referências necessárias as narrativas e consultoria psicológica na pré escrita.

 

Além de exercer o ofício, quero me reconhecer enquanto Roteirista na prática, saber qual o meu perfil, do que gosto e o que as pessoas esperam de mim. A partir disso, vou buscar outras possibilidades que se encaixem ao que posso almejar no futuro enquanto criadora de conteúdo.

Não

Disponibilidade para mudança:

Não

bluesbianca@gmail.com
Bianca Blues

Trajetória Profissional

Janeiro 2022

Pesquisadora de curtas metragens indicados e premiados na história do Oscar e Palma de Ouro encomendada por Thiago Espeche, diretor e fundador da Chucky Jason.


Agosto 2020 a Abril 2021

Co-roteirista e consultora psicológica para série de TV em parceria com Marcelo Presotto e Rodrigo Chevas.


Abril 2011 a Agosto 2021

Psicóloga da saúde mental pública e terceiro setor. Atuação em serviços como UBS, NASF, SAICA e APD com reabilitação intelectual, psicopatologias, abuso sexual infantil, violência doméstica, grupo de adolescentes, resolução de conflitos, articulação para inclusão de pacientes no mercado de trabalho pela cota de deficientes, relatórios técnicos, entre outros.

Conheça minha história

Cresci numa cidade interiorana machista e provinciana que costuma cortar os sonhos, principalmente de quem não se adequa à normose exigida. Mas, por mais que eu não cedesse aos caprichos de uma cidade que sempre flertou com o retrocesso, fica difícil ser assertiva e resiliente o tempo todo. Talvez foi assim que eu fui deixando de lado uma paixão: as artes.


Escolhi psicologia aos 18 anos depois de ver o filme Efeito Borboleta (oi? rsrs), ou seja, no auge de uma adolescência leviana e imatura. A cobrança de entrar numa faculdade era desumana, não dos meus pais, mas sim minha. Eu precisava ir embora daquele lugar e um curso superior me proporcionaria asas para voar. Fiz a faculdade com uma chama, ainda que pequena, que me dizia o tempo todo que aquele não era o meu lugar e pedi pro meu pai me transferir de curso. Qual? Cinema! - O que? Jamais.


Conformada e acomodada, continuei na psicologia e por incrível que pareça me formei no tempo certo em julho em 2010.

 

Começei a excercer a profissão em abril de 2011, já na saúde pública com o coração aberto para as possibilidades e de fato gostei de atender. Só que, para mim, gostar não era o suficiente para passar oito horas por dia me dedicando a um ofício tão denso como a psicologia. E como algumas chamas nunca se apagam, ainda mais as femininas, pedi demissão da prefeitura da minha cidade pra realizar meu grande sonho: morar na cidade grande. Claro, louca foi a palavra mais "doce" que ouvi dos que não entendem o porquê uma mulher deve desbravar o mundo. Pior era quando me perguntavam o motivo da mudança e eu respondia "vou voar".

 

São Paulo me acolheu de braços abertos e o que era uma grande paixão se tornou meu grande amor. É como diz aquela música:


"Graças a Deus você existe

Acho que eu teria um troço

Se você dissesse que não tem negócio

Te ergo com as mãos, sorrio mais..."

(META METÁ - TROVOA)


E já que eu era louca, rsrs, cheguei e voei, sem emprego e com algum dinheiro no bolso, mas disposta a desfrutar desse universo novo que estava aberto pra mim. A grande vantagem é que os loucos podem fazer suas peripécias e ninguém se importa, ainda mais numa metrópole.

 

A psicologia não estava mais nos planos, eu queria experimentar coisas que eu nem sabia o que eram e trabalhei como freelance numa gráfica com péssima remuneração, mas é aquilo... Ser adulto te exige escolhas difíceis e decidi voltar para a psicologia, mas agora com um outro olhar. Me permiti excercer esse "dom" da escuta e da ajuda para servir a humanidade e agradecendo a profissão que me permitiu ficar aqui.


Consegui minha ascenção financeira quando passei para um processo seletivo (CLT) em dezembro de 2015 para a Prefeitura de SP e finalmente realizei outro sonho! Pagar as contas da casa e o aluguel, fazer mercado, acertar no débito uma cerveja num bar da Rua Augusta, comprar uma roupa e um sapato, ir ao cinema, tudo era um sonho. Ainda é! E sem a psicologia nada disso seria possível.

 

Mas em abril de 2017 um amigo se matou em circunstâncias misteriosas. Caí em depressão profunda e tive síndrome do pânico, porque além do suicídio inesperado, ele me ligou antes de morrer. Não há psicológico que supere, nem mesmo o de uma psicóloga. Foi um ano no buraco até ter a real dimensão que eu precisava de ajuda e iniciar o tratamento. Mas as circunstâncias suspeitas em que meu amigo morreu eram de fato uma história de filme. Não apenas eu, mas todos nós descobrimos durante o velório uma pessoa até então desconhecida que vivia uma vida dupla num personagem sombrio. Olhando ele morto, eu disse em pensamento: Ainda vou fazer um filme sobre isso. Não sei como, mas vou.


Eu não fazia ideia de como um filme passa a existir, mesmo querendo fazer cinema aos 18 anos. Eu ia produzir? Dirigir? Escrever? De onde eu começaria? Quais pessoas conhecer? Onde ir? Até que um anjo me disse: Por que você não faz um curso de roteiro? Seu talento na escrita é o caminho certo pra fazer esse filme.


Naquele instante um véu caiu dos meus olhos e me matriculei na melhor escola de roteiro do país. Já que eu gastaria grana, energia e tempo, que fosse o melhor! Eu merecia esse presente. Na primeira aula tomei um susto, não só pelo conteúdo que me conquistou de primeira, mas por entender que aquilo era meu recomeço e que escrever um longa metragem sobre um amigo querido seria apenas uma das minhas criações.

 

Me formei como Roteirista para filmes e séries de TV e a chama que me acalentava lá atras voltou a existir. O meu caminho é a escrita!

 

Me surgiu um novo desafio: viver do meu caminho. E a linha pra viver e não apenas sobreviver é tortuosa. A pandemia veio e o processo de trabalho que já era difícil, se tornou quase insustentável para todos da equipe. Mas eu tinha algo além e a depressão voltou com tudo em março de 2020 agora em decorrência da rotina de trabalho. De fato exercer a psicóloga na saúde pública exige paciência, assertividade e muita sabedoria, qualidades imprescindíveis que eu estava perdendo com a depressão. Tirei licença médica por dois meses e voltei recuperada, mas em dezembro de 2020 entrei num declínio psicológico irreversível e precisei tirar outra licença em junho de 2021.

 

Além disso, era impossível chegar do trabalho e me dedicar a leitura e a escrita, ainda mais relacionado a uma profissão como a de Roteirista. Ter as práticas de escrever e ler é o básico e nem isso eu conseguia fazer. Qualquer coisa que não fosse comer, dormir e ficar passiva em frente a TV ou internet me pareciam impossíveis. O processo de adoecimento mental me deixava cada mais mais distante da transição de carreira e lidar com pacientes que realmente precisavam de mim aliada a auto cobrança em ter uma postura de excelência enquanto profissional da saúde mental me deixava muito vulnerável. Claro, me culpei, me julguei, acreditei que eu era irresponsável e não me esforçava o suficiente. Quando vi, já havia se passado mais de um ano.

 

Quando voltei um mês e meio depois da última licença, parei em frente a UBS em que eu trabalhava e passei a observar tudo aquilo com uma perspectiva inédita. Me senti a pior pessoa do mundo, mas também me abraçei e me acolhi, respeitei meus sentimentos e minha incapacidade de gratidão que eu já não conseguia ter com a psicologia.

 

Começei a ter crises de pânico nas reuniões de equipe, a chorar no carro a caminho dos atendimentos e não ser mais capaz de tomar decisões técnicas com os meus pacientes. Mas a gota d'agua foi quando eu tive uma forte dor no peito, tão forte que achei que estava infartando. Naquele mesmo dia (agosto de 2021) tomei a decisão mais difícil de toda minha vida, mais difícil do que quando me mudei para cá. Pelo respeito fiel à minha equipe de trabalho, aos meus pacientes e para preservar a minha vida física, pedi desligamento. Se livrar daquele jaleco branco escrito "prefeitura de São Paulo" que traz um status foi como me livrar de um piano nas costas.

 

Nunca me senti tão realizada em fracassar na vida. Sim, para mim isso é um fracasso, mas que me devolveu a capacidade de olhar não só a vida, mas a mim mesma com doçura. O fracasso me libertou das feridas que eu mesma causava em mim todos os dias. Eu precisei me permitir cair e viver minha dor, porque eu sabia que isso me daria forças para continuar quando fosse preciso.

 

Desde então tenho me dedicado aos estudos teóricos em roteiro, de Aristóteles a estruturas narrativas modernas. Para mim, estudar é um jeito de honrar a decisão que tomei. Da parte prática, quero estar o mais preparada possível para a entrada neste mercado tão restrito do audiovisual brasileiro.

 

Dessa vez ninguém me chamou de louca. Dividi essa transição a pouquíssimas pessoas que eu sabia que entenderiam não só a minha decisão, mas a essência dela. Lulu Santos já dizia:


"O que eu ganho

E o que eu perco

Ninguém precisa saber"

 

Te agradeço psicologia, não só a você, mas ao meu amigo que se foi, ao meu pai que manteve a firmeza necessária de me dizer não para o curso de Cinema. Sem isso eu nunca teria trilhado este caminho bonito. Quero dizer que desejo fazer cinema no Brasil e para o Brasil, um país tão plural merece ter narrativas potentes que façam com que sejamos vistos sob outra perspectiva.

 

O filme "O Silêncio de Mim", que conta a história inspirada em meu amigo, hoje faz companhia a outros projetos de escrita que ainda são pequenos embriões. Passear por essas criações tem sido algo incrível para mim, mas também obscuro. É um trabalho ainda muito solitário para quem trabalhou a vida toda em equipe multiprofissional e recebeu o salário na conta todo quinto dia útil do mês.

 

Não tenho dinheiro, aliás não sei como pagarei minhas contas. São questões concretas trazidas em decorrência da minha decisão e que sempre tive consciência. Mas o medo de não pagar as contas não se compara aquela angústia diária ao acordar para trabalhar.

 

Cumpri minha missão enquanto psicóloga. Agora é ganhar oportunidades pra alçar novos vôos.

 

A independência é indispensável para um adulto, mas ter autonomia transcende a vida. Ter o poder de tomar decisões e fazer suas próprias escolhas consciente de sua responsabilidade, não culpa, é o ápice do que eu chamo de felicidade. Mesmo que pareça um pouco estranho.

 

E por último, mas não menos importante! Meu quadro de depressão está controlado e sigo em tratamento. Possuo uma rede de apoio bem restrita, mais precisamente de duas pessoas, que tem me lembrado de persistir nos meus projetos...

 

Que é poder fazer o mercado e pagar as contas da casa fazendo algo que amo. Se existe algo mais concreto, desconheço. A partir disso, você sabe que terá uma profissional que sonha, mas que entende a graça e a magia de manter os pés no chão.

 

Obrigada pelo espaço,

 

B Blues

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Outras iniciativas da Cruzando Histórias nas quais participou: