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O peso invisível das dívidas: como a desigualdade impacta a vida financeira das mulheres

Entre o desemprego e a sobrecarga de cuidados, mulheres enfrentam barreiras que vão muito além da organização financeira.


Dados da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serasa mostram que, em 2026, as mulheres passaram a representar a maioria das pessoas inadimplentes no país, somando cerca de 50,5% desse total.


Mas, na prática, o que isso significa?


Significa que, para muitas mulheres, o endividamento não nasce da falta de controle, mas sim da necessidade de colocar comida na mesa, de sustentar a casa e de dar conta, geralmente sozinha, de responsabilidades que são estruturais.


Na Cruzando Histórias, a gente olha para esses dados com escuta e contexto, porque por trás de cada CPF negativado, existe uma mulher tentando sustentar sua vida, e muitas vezes, a de toda a sua família.


Antes de continuar, te convido a assistir à minha participação em uma reportagem da TV Cultura, exibida no dia 23 de abril, sobre educação financeira e empregabilidade feminina na Casa CH.


Na matéria, nossa beneficiária Jussara Santos do Carmo também compartilha sua história, um retrato real do que tantas mulheres atendidas pela Cruzando Histórias vivem diariamente.



O que está por trás do endividamento feminino


Falar sobre a inadimplência feminina é falar sobre desigualdade. As mulheres ainda ganham menos, têm menos acesso a empregos formais e acumulam jornadas invisíveis de cuidado.


Esse cenário impacta diretamente a forma como elas se relacionam com o dinheiro.


Dados da Cruzando Histórias mostram que 61,4% das mulheres atendidas são as principais provedoras de seus lares. E, ainda assim, grande parte enfrenta o desemprego ou a informalidade.


Isso cria um ciclo difícil de romper: menos renda, mais responsabilidade e maior dependência de crédito. Muitas vezes, esse crédito deixa de ser uma escolha e passa a ser uma estratégia de sobrevivência.


Confira as informações adicionais na nossa tabela:
tabela com dados do relatório 2025 da cruzando histórias

Quando os dados ganham rosto: mulheres, trabalho e dívida


infográfico com dados do relatório 2025 da cruzando histórias

Ao cruzarmos os dados nacionais com o perfil das mulheres atendidas pela Cruzando Histórias, fica evidente que estamos diante de múltiplas camadas de exclusão.


Se, no Brasil, as mulheres representam pouco mais da metade das pessoas inadimplentes, aqui esse número chega a 100%.


Mas o recorte se aprofunda.


Mais da metade dessas mulheres são pretas ou pardas, grupo que historicamente enfrenta condições mais desiguais de acesso ao crédito. Ao mesmo tempo, 53% possuem ensino superior ou pós-graduação e, ainda assim, 91,5% estão desempregadas.


Esse é um ponto central: a qualificação existe, mas a oportunidade não chega.


Quando olhamos para a renda, o cenário se mantém desafiador: a maioria vive com até dois salários mínimos. E, dentro desse contexto, 80,9% são mães e 61,4% são as principais provedoras de seus lares.


Isso significa que o impacto da falta de renda não é individual, ele se estende diretamente para outras pessoas dentro da mesma casa. Na prática, cada mulher apoiada impacta, em média, pelo menos outras duas ou três vidas.


Quando gênero e raça definem o custo do dinheiro


A desigualdade financeira no Brasil não é neutra, ela tem gênero e tem cor.


Mulheres negras chegam a pagar, em média, 140% ao ano em taxas de juros, enquanto homens brancos acessam crédito com taxas próximas de 97%. Essa diferença representa uma barreira concreta para sair do ciclo de endividamento.


Além disso, o crédito rotativo, especialmente o cartão de crédito, tem um peso significativo: cerca de 49% das dívidas femininas estão concentradas nessa modalidade, uma das mais caras do mercado.


Mais uma vez, o crédito aparece não como escolha, mas como estratégia de sobrevivência.


Educação financeira como ferramenta de autonomia e não de culpa


Se o problema é estrutural, a solução precisa ser acessível, prática e acolhedora. Na Cruzando Histórias, a educação financeira não parte da lógica da culpa, parte da realidade.


Falamos sobre o básico, de forma possível: entender quanto entra e quanto sai, diferenciar necessidade de desejo, organizar os gastos e construir uma relação mais consciente com o dinheiro.


Porque autonomia financeira não começa com planilhas complexas, começa com informação clara, apoio e continuidade.


Caminhos possíveis para sair da inadimplência


Sair das dívidas pode parecer distante, mas existem caminhos, e eles começam com pequenos passos.


O primeiro é olhar para a própria realidade financeira com honestidade e sem julgamento. A partir disso, é possível organizar prioridades, buscar negociação de dívidas e acessar direitos que muitas vezes não chegam a quem precisa.


Outro ponto essencial é a geração de renda. O emprego formal, com carteira assinada, ainda é a principal ferramenta para romper o ciclo da inadimplência.


Ele garante previsibilidade, proteção social e acesso a condições de crédito mais justas. E nesse contexto, mais do que sair da inadimplência, trata-se da mulher conseguir sair do modo de sobrevivência.


O papel da Cruzando Histórias nessa jornada


Em 2025, mais de 3 mil mulheres foram atendidas pela Cruzando Histórias para ajudar nesse ponto de virada. Iniciativas como a Jornada do Cuidado levaram informação prática sobre planejamento financeiro e negociação de dívidas para mulheres em situação de vulnerabilidade.


Por meio de acolhimento psicológico, orientação de carreira e formação profissional, conectamos mulheres a oportunidades reais de trabalho, renda e autonomia. Porque nenhuma mulher deveria enfrentar o desemprego, a sobrecarga e a insegurança financeira sozinha.


Autonomia financeira é dignidade


Retomar o controle financeiro é, acima de tudo, um ato de liberdade. Quando uma mulher tem acesso à informação, apoio e oportunidade, ela não apenas organiza sua vida, ela transforma sua trajetória.


E mais do que isso: impacta sua família, sua comunidade e o futuro ao seu redor.


Falar de inadimplência feminina é, no fundo, falar de dignidade e garantir autonomia financeira é parte essencial do enfrentamento às desigualdades.


Por isso, seguimos acreditando que toda mulher merece não apenas sair das dívidas, mas ter a chance real de reescrever sua história.

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