Entenda como as empresas podem fazer parte da rede de proteção às mulheres
- Gabriella Zavarizzi

- há 24 horas
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O 3º Painel Agosto Lilás reuniu especialistas e representantes de empresas para compartilhar experiências e discutir práticas que ajudam organizações a acolher colaboradoras, fortalecer lideranças e ampliar a rede de proteção às mulheres.
Vinte anos após a criação da Lei Maria da Penha, muitas empresas ainda se perguntam qual é o seu papel no enfrentamento à violência contra a mulher. Essa foi a reflexão que norteou o 3º Painel Agosto Lilás — Como empresas enfrentam a violência contra a mulher, promovido pela Cruzando Histórias, reunindo profissionais de recursos humanos, ESG, comunicação, compliance e lideranças para discutir como organizações podem construir ambientes mais seguros e acolhedores para as mulheres.
"A violência pode não começar na empresa, mas ela chega à empresa todos os dias", destaca Bia Diniz, CEO e fundadora da Cruzando Histórias durante o encontro.
A frase resume uma realidade que, durante muito tempo, permaneceu invisível. Embora a violência aconteça, na maioria das vezes, fora do ambiente de trabalho, seus impactos chegam diariamente às organizações por meio das pessoas. Ansiedade, medo, isolamento, faltas frequentes, queda de rendimento e dificuldades para permanecer no emprego podem refletir situações de violência vividas em casa ou em relacionamentos abusivos.
Foi justamente a escuta dessas histórias que levou a Cruzando Histórias a ampliar sua atuação. Há quase dez anos, a organização acompanha mulheres em busca de trabalho, renda e novas oportunidades. Nesse percurso, percebeu que empregabilidade, autonomia financeira, saúde emocional e enfrentamento à violência caminham juntos.
Muitas mulheres deixam de crescer profissionalmente não por falta de competência, mas pelas barreiras invisíveis impostas pela violência e pela vulnerabilidade social.

Quando o trabalho também se torna uma forma de proteção
Durante o painel, Bia Diniz chamou atenção para uma pergunta recorrente diante de um caso de violência: "Por que ela não sai dessa relação?". Segundo ela, a reflexão precisa ser outra.
Mais importante do que questionar a decisão da mulher é compreender quais condições ela tem para reconstruir a própria vida. Ter renda, moradia, rede de apoio, acesso aos direitos e segurança para cuidar dos filhos faz toda a diferença nesse processo. Sem autonomia financeira, muitas permanecem em relações abusivas porque simplesmente não têm para onde ir.
Nesse contexto, o trabalho deixa de ser apenas uma fonte de renda. Ele representa autonomia, possibilidade de escolha e, muitas vezes, o primeiro passo para romper um ciclo de violência.
Quando a violência também impacta o trabalho
A relação entre violência e trabalho também apareceu em dados apresentados durante o painel. Segundo pesquisa da Universidade Federal do Ceará, realizada em parceria com o Instituto Maria da Penha, mulheres em situação de violência perdem, em média, 18 dias de trabalho por ano em decorrência da violência. O estudo mostra ainda que elas permanecem 21% menos tempo nos empregos e que 23% já recusaram ou desistiram de uma oportunidade profissional porque o parceiro era contrário.
Mais do que indicadores de produtividade, esses números evidenciam como a violência compromete a permanência no mercado de trabalho, reduz a autonomia financeira e limita as possibilidades de crescimento profissional. Também ajudam a explicar por que mudanças de comportamento, faltas frequentes, atrasos e queda de desempenho podem ser sinais de que uma colaboradora enfrenta uma situação de violência, reforçando a importância de ambientes preparados para acolher e orientar.

Empresas não precisam resolver o problema sozinhas, mas podem fazer parte da solução
O encontro também reforçou que enfrentar a violência contra a mulher não significa transformar empresas em serviços de assistência social. O papel das organizações é criar ambientes preparados para acolher, orientar e conectar mulheres às redes de apoio já existentes.
Isso começa com lideranças capacitadas para identificar mudanças persistentes de comportamento, oferecer uma escuta respeitosa, preservar o sigilo e conhecer os caminhos de encaminhamento. Também passa por políticas que favoreçam a permanência e o desenvolvimento profissional das mulheres, com remuneração justa, oportunidades de crescimento e ambientes psicologicamente seguros.
Além disso, Bia destacou que acolher não é investigar, pressionar ou decidir pela mulher. É escutar sem julgamento, respeitar sua autonomia e ajudá-la a acessar os caminhos disponíveis para buscar proteção.
Da conscientização à transformação
A Cruzando Histórias já coloca essa visão em prática por meio de iniciativas desenvolvidas em parceria com empresas e organizações.
Entre elas estão o Stand-Up, realizado em parceria com a L'Oréal Paris para capacitar pessoas a agir diante de situações de assédio; o Abuso Não é Amor, desenvolvido com Yves Saint Laurent Beauty para conscientizar sobre os primeiros sinais de relações abusivas; o Despertando a Empreendedora, realizado com BNDES e Empreende Aí que fortalece a autonomia financeira de mulheres negras por meio do empreendedorismo; e o EscutAção Florescer, desenvolvido em parceria com o Grupo Energisa, que oferece acolhimento psicológico e orientação de carreira para mulheres em situação de vulnerabilidade.
O painel também apresentou o projeto desenvolvido com o Instituto Energisa, do Grupo Energisa, que evoluiu de uma palestra para um programa estruturado de formação, criação de embaixadores internos e financiamento de acolhimento psicológico para mulheres em situação de violência — um exemplo de como a conscientização pode se transformar em ações permanentes.
Uma responsabilidade compartilhada
Ao longo da apresentação, ficou claro que a violência contra a mulher é um problema social complexo e, por isso, exige respostas igualmente coletivas. Estado, empresas, organizações da sociedade civil e cidadãos têm papéis diferentes, mas complementares, na construção dessa rede de proteção.
Quando organizações investem em informação, fortalecem lideranças, ampliam oportunidades para mulheres e criam espaços de escuta, ajudam a construir ambientes onde autonomia, segurança e dignidade caminham juntas.
O encontro terminou com uma pergunta que permanece atual para qualquer organização:
Quando uma mulher em situação de violência chega ao trabalho, o que ela encontra?
Talvez responder a essa pergunta seja o primeiro passo para transformar o ambiente de trabalho em um espaço de acolhimento, proteção e recomeço.




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