Mulheres que movimentam territórios: Pesquisa revela desafios e potências de empreendedoras periféricas de SP
Atualizado: há 13 horas
No dia 1º de setembro de 2026, um encontro presencial na Arena Magalu, em São Paulo, marcou o lançamento da pesquisa “Mulheres que Movimentam Territórios — Diagnóstico territorial e socioeconômico das empreendedoras periféricas de São Paulo (2026/2028)”.
O estudo reúne dados que ajudam a compreender a realidade de mulheres que sustentam famílias, cuidam de outras pessoas e movimentam a economia de seus bairros por meio do próprio trabalho, dando visibilidade às suas trajetórias, desafios e potencialidades.
Realizado no âmbito do programa Despertando a Empreendedora, o diagnóstico ouviu 378 mulheres na cidade de São Paulo, sendo 318 moradoras dos nove territórios priorizados pela iniciativa. Os resultados servirão de base para orientar as próximas formações, a destinação de recursos e as estratégias de acompanhamento do programa.
Escutar o território para construir respostas mais efetivas
A pesquisa combina levantamento quantitativo, escuta qualitativa de lideranças territoriais, empreendedoras, educadoras sociais e representantes de coletivos de mulheres, além do cruzamento com dados secundários do IBGE, Sebrae, Dieese, Raseam e Mapa da Desigualdade. A metodologia permite compreender o perfil das participantes e identificar como desigualdades de gênero, raça, renda e território se sobrepõem em suas experiências.
Os dados revelam um público majoritariamente negro, adulto e com forte responsabilidade pelo sustento e pelo cuidado familiar. A idade média das participantes é de 39 anos. Entre as mulheres do recorte territorial, 73% se autodeclaram negras, 79% têm filhos, 69% têm pessoas que dependem de seus cuidados e 47% são as principais provedoras do domicílio.
Principais números do diagnóstico
Os resultados ajudam a dimensionar as condições socioeconômicas em que essas mulheres empreendem e os desafios que atravessam sua relação com trabalho, renda e cuidado.
73% se autodeclaram negras.
79% têm filhos.
47% são as principais provedoras do domicílio.
20% das 318 respondentes não têm renda própria.
Entre as 242 participantes que declararam renda, 83% recebem até dois salários mínimos.
61% das 318 respondentes têm dívidas que limitam o investimento no negócio ou em formação.
Eles mostram que falar de empreendedorismo feminino nas periferias exige considerar as diferentes dimensões da vida dessas mulheres. O negócio convive com despesas como aluguel e alimentação e com responsabilidades relacionadas aos filhos, à casa e ao cuidado de familiares. Para muitas delas, empreender surge como uma resposta concreta à necessidade de gerar renda e também como um caminho para ampliar sua autonomia.
Entre a necessidade de renda e o desejo de autonomia
A geração de renda aparece como uma das principais motivações para empreender. Em uma questão de múltipla escolha, 44% das participantes apontaram a necessidade de renda como uma das razões para iniciar um negócio, enquanto 40% mencionaram a busca por autonomia e 21% indicaram a possibilidade de conciliar trabalho e cuidado dos filhos.
Os negócios se concentram principalmente em atividades com menor barreira de entrada e forte presença na economia local. Alimentação e gastronomia representam 23% das atividades ou intenções de atuação, seguidas por beleza e estética, com 16%, e serviços domésticos e de cuidado, com 10%.
São áreas que mobilizam conhecimentos e experiências já presentes nos territórios, mas que também podem encontrar obstáculos para gerar renda de forma sustentável. Gestão, precificação, divulgação, acesso a canais de venda e a capital estão entre os fatores que influenciam a capacidade de estruturar e ampliar esses negócios. Nesse contexto, a pesquisa aponta para a importância de combinar formação técnica com ferramentas que contribuam para a organização e o fortalecimento das atividades empreendedoras.
O cuidado não pode continuar invisível
A responsabilidade pelo cuidado aparece como um dos fatores que condicionam a participação das mulheres em oportunidades de trabalho e formação. Entre as mães de crianças de zero a cinco anos, 63% afirmaram não ter com quem deixar os filhos para participar de cursos.
O dado mostra como questões práticas podem se tornar barreiras concretas de acesso. Horário, localização, alimentação, duração das atividades e disponibilidade de acolhimento para as crianças estão entre os fatores que podem determinar a participação e a permanência dessas mulheres em uma formação.
O diagnóstico também chama atenção para a realidade de mães que cuidam de crianças com deficiência ou condições relacionadas ao neurodesenvolvimento. Rotinas que envolvem terapias, atendimentos e deslocamentos acrescentam demandas à organização cotidiana e podem dificultar a conciliação entre o cuidado, a formação e a manutenção de um trabalho ou negócio com horários regulares.
A conclusão é direta: considerar as responsabilidades de cuidado desde a construção das iniciativas é uma condição importante para ampliar o acesso e a participação dessas mulheres.
Dívidas, falta de capital e barreiras que os números nem sempre mostram
O endividamento aparece como outro obstáculo relevante. 61% das respondentes afirmaram ter dívidas que limitam sua capacidade de investir no negócio ou em formação profissional. Para 27%, esse impacto é considerado intenso.
Quando questionadas, em uma pergunta de múltipla escolha, sobre os principais desafios para desenvolver seus negócios, 54% citaram a falta de recursos para investir, 23% apontaram dificuldades para vender e conquistar clientes e 22% mencionaram a falta de tempo relacionada às responsabilidades de cuidado.
As rodas de conversa e as escutas qualitativas trouxeram à tona outras barreiras que nem sempre aparecem nos indicadores econômicos. Relatos de insegurança, vergonha, medo do fracasso e dificuldade de reconhecer o valor do próprio trabalho surgiram entre as experiências compartilhadas pelas participantes. São aspectos que podem repercutir em decisões importantes para o negócio, como definir preços, negociar com clientes, divulgar produtos e buscar novas oportunidades.
Os resultados indicam que o apoio ao empreendedorismo também está relacionado ao apoio socioemocional. A estratégia precisa combinar conhecimento técnico, redes de apoio e acompanhamento continuado, contribuindo para que essas mulheres tenham melhores condições de desenvolver seus negócios e tomar decisões com maior segurança.
Formação abre caminhos, mas precisa vir acompanhada de estrutura
Entre as mulheres com negócios em atividade que já participaram de alguma capacitação, 60% estão formalizadas, ante 37% entre aquelas que nunca fizeram uma formação. A diferença também aparece no faturamento médio estimado: R$ 2.427 entre quem já participou de capacitações, diante de R$ 1.667 entre quem nunca participou.
O estudo ressalta que os números indicam correlação, e não uma relação direta de causa e efeito. Ainda assim, apontam para a relevância de formações práticas, acessíveis e adequadas ao estágio de cada negócio.
A procura por conteúdos de gestão e finanças também aumenta conforme o empreendimento amadurece. Entre os negócios ainda não formalizados, varia de 5% a 20%; entre os formalizados, chega a 54%. O resultado reforça a importância de diferenciar as necessidades de quem está começando e de quem já vende e busca crescer.
No campo digital, 97% das participantes têm internet em casa e, entre elas, 94% acessam principalmente pelo celular. Materiais, inscrições e atividades online precisam, portanto, considerar o telefone como principal meio de acesso. O desafio está no uso das ferramentas digitais para divulgação, redes sociais e vendas pela internet.
O receio de perder benefícios sociais também surgiu como barreira à formalização. O relatório destaca que a formalização como Microempreendedora Individual (MEI) não cancela automaticamente o Bolsa Família, cuja manutenção considera a renda familiar por pessoa e as regras vigentes. No caso do Benefício de Prestação Continuada (BPC), a atividade remunerada da própria beneficiária pode levar à suspensão do benefício. Por isso, o estudo recomenda orientação individualizada e informações claras sobre os impactos da formalização.
Um diagnóstico que passa a orientar a ação
Com os resultados, o diagnóstico passa a servir como referência para a definição das próximas etapas do programa, ajudando a direcionar formações e recursos a partir das necessidades identificadas nos territórios.
“Essa pesquisa demonstra com evidências e uma base estruturada diversos pontos que já acompanhamos com as empreendedoras ao longo desses mais de 11 anos de atuação nas periferias, porém é extremamente importante colocar luz sobre esses dados para que todos entendam as dificuldades que cercam a rotina de uma mulher que empreende nas periferias, para entenderem que mais do que força de vontade, é necessário investimento e estrutura para apoiar os sonhos dessas mulheres”, apontam Jennifer Rodrigues e Luis Coelho, fundadores da Empreende Aí.
“Ter esses dados em mãos nos permite entender com mais clareza quem são essas mulheres, quais obstáculos fazem parte da rotina delas e o que precisam para avançar com seus negócios. A partir desse diagnóstico, conseguimos direcionar melhor as formações e os recursos do programa para aquilo que realmente pode contribuir para a geração de renda e para a autonomia financeira dessas empreendedoras.” — Bia Diniz, fundadora da Cruzando Histórias
O relatório foi concebido como o marco zero do ciclo 2026/2028 do Despertando a Empreendedora. Essa linha de base permitirá acompanhar mudanças, comparar resultados e aperfeiçoar as ações ao longo dos próximos anos.
Até 2028, o programa prevê 3 mil vagas em 60 turmas, com formação empreendedora de 80 horas. Também serão destinados R$ 2 mil em recurso-semente para 800 negócios, totalizando R$ 1,6 milhão em investimento direto, além de mentorias para negócios de destaque e mil vagas em aulas técnicas de gastronomia, moda, beleza e estética e audiovisual.
As ações serão realizadas em Parelheiros, Grajaú, Capão Redondo, São Luís, Jardim Ângela, Itaim Paulista, Vila Jacuí, Cidade Tiradentes e Guaianases. Embora as demandas por conteúdo sejam semelhantes entre as zonas Sul e Leste, a pesquisa aponta que os formatos podem exigir adaptações a cada território. Há uma tendência de maior preferência pelo presencial na Zona Sul e pelo online ao vivo na Zona Leste, embora a diferença não tenha alcançado significância estatística.
O Despertando a Empreendedora é uma iniciativa do Empreende Aí, com correalização da Cruzando Histórias. O programa conta com o apoio de BNDES, Magalu, IFC — International Finance Corporation, Itaú Mulher Empreendedora, Ultragaz e Instituto Lojas Renner, além da participação de lideranças e organizações locais que ajudam a iniciativa a chegar aos territórios.
Conhecimento que se transforma em oportunidade
O lançamento da pesquisa reafirma uma escolha fundamental: antes de oferecer respostas, é preciso escutar. As mulheres retratadas pelo diagnóstico são trabalhadoras, provedoras, cuidadoras, empreendedoras e agentes econômicas de seus territórios, com diferentes realidades, necessidades e perspectivas.
Reconhecer essa complexidade ajuda a substituir soluções genéricas por estratégias conectadas à realidade. Os resultados mostram a importância de articular formação e gestão com apoio socioemocional, acesso a recursos, orientação sobre formalização e condições concretas para que essas mulheres participem das iniciativas.
Com um diagnóstico construído a partir da realidade dos territórios, o Despertando a Empreendedora passa a contar com uma base concreta para orientar suas ações, ampliar as possibilidades de geração de renda e fortalecer a autonomia econômica de mulheres negras e periféricas. O desenvolvimento desses negócios também pode gerar impactos que alcançam as famílias, as comunidades e a economia local.
Relatório completo da pesquisa
Acesse o relatório completo da pesquisa em PDF.
Nota metodológica: a pesquisa adotou amostragem não probabilística, por conveniência e bola de neve. Dessa forma, os resultados têm caráter descritivo e indicativo, representam o grupo participante e não podem ser generalizados para todas as mulheres dos territórios pesquisados. Conduzido pela Mais Impacto, o levantamento combinou formulário estruturado, escuta qualitativa e cruzamento com dados secundários.





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