Saúde na era digital: dispositivos, apostas e mulheres
Atualizado: 17 de set.
A tecnologia está presente em boa parte das escolhas que fazemos ao longo do dia — do conteúdo que consumimos à forma como compramos, trabalhamos, nos relacionamos e usamos nosso tempo. Nesse cenário, olhar para a maneira como interagimos com o ambiente digital também ajuda a entender seus efeitos sobre a rotina e a construir uma relação mais consciente com o que acontece nas telas.
Saúde na Era Digital: resgate sua essência
Em uma rotina marcada por notificações, algoritmos e recompensas instantâneas, compreender como os ambientes digitais influenciam atenção, emoções e decisões também é uma forma de cuidado.
Você já pegou o celular para fazer uma coisa e, alguns minutos depois, percebeu que estava em outro aplicativo? Já sentiu vontade de recuperar imediatamente uma perda em um jogo ou aposta?
Essas situações não significam, por si só, que existe um problema. A tecnologia pode facilitar o acesso à informação, ampliar oportunidades e aproximar pessoas. O ponto de atenção está em perceber quando determinados ambientes digitais estimulam a repetição e começam a ocupar espaço demais na nossa vida.
Para as mulheres, essa conversa precisa considerar a sobrecarga de trabalho, o cuidado de outras pessoas, a pressão estética, a necessidade de produzir e a responsabilidade de fazer a renda da casa render. Cuidar na era digital não significa desaparecer da internet. Significa recuperar a possibilidade de escolher como, quando e por que estar conectada.
O que os dados mostram sobre as apostas?
O Terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, o LENAD III, aponta que 17,6% da população brasileira com 14 anos ou mais realizou algum tipo de aposta nos 12 meses anteriores à pesquisa. Entre as pessoas que apostaram nesse período, 32,1% mencionaram sites de apostas esportivas, as chamadas bets. No total, 5,6% da população utilizou essa modalidade, o equivalente a mais de 9 milhões de pessoas.
Entre quem havia apostado recentemente, 38,6% apresentaram ao menos um critério de risco ou problema, segundo a escala PGSI. O instrumento considera aspectos como perda de controle, tentativa de recuperar valores perdidos, problemas financeiros, estresse e culpa. Já 4,4% das pessoas que apostaram recentemente atingiram a faixa compatível com provável transtorno do jogo.
Importante: o PGSI é um instrumento de rastreamento, não um diagnóstico clínico. Os dados mostram associações e comportamentos observados em determinado período. Eles não provam que uma plataforma ou um dispositivo causou adoecimento.
Mulheres e apostas: como interpretar os números?
Segundo o LENAD III, 12% das mulheres e 23,8% dos homens declararam ter apostado nos 12 meses anteriores à pesquisa. Entre as pessoas que apostaram recentemente, 28,9% das mulheres e 43,7% dos homens apresentaram ao menos um critério de risco ou problema.
Já a pesquisa DataSenado Panorama Político 2024 apontou que cerca de 12% das pessoas entrevistadas haviam gasto com apostas esportivas em aplicativos ou sites nos 30 dias anteriores. Entre esse grupo de apostadores recentes, 38% eram mulheres e 62% eram homens.
Os levantamentos apresentam recortes diferentes e, por isso, os percentuais precisam ser interpretados dentro de seus respectivos contextos.
O dado de 38%, por exemplo, indica a participação das mulheres no grupo de pessoas que haviam apostado recentemente. Isso não significa que 38% das mulheres brasileiras apostam, nem permite concluir sobre intensidade, prejuízos ou diagnóstico. As pesquisas citadas também não identificam qual dispositivo foi utilizado para realizar as apostas.
Por que estímulos e recompensas podem influenciar decisões?
Uma forma simples de entender como muitos ambientes estimulam determinados comportamentos é observar o ciclo pista → ação → retorno → repetição.
Uma notificação, uma oferta ou um placar pode funcionar como pista. Ao abrir o aplicativo, a pessoa encontra uma mensagem, uma curtida, um vídeo, um bônus ou uma possibilidade de ganho. Se essa experiência for percebida como recompensadora, cresce a tendência de repetir o comportamento.
Alguns recursos podem reforçar esse ciclo:
notificações, que interrompem a atenção e podem criar uma sensação de urgência;
recompensas variáveis, como curtidas, ganhos e resultados imprevisíveis;
feedback imediato, por meio de placares, saldos, animações e atualizações em tempo real;
rolagem contínua e autoplay, que diminuem os pontos naturais de pausa;
personalização algorítmica, que seleciona conteúdos e ofertas a partir das interações anteriores;
acesso permanente, que reduz o intervalo entre o impulso e a ação.
Uma revisão publicada na Nature Reviews Psychology descreve como características presentes no design de ambientes digitais podem dificultar o controle do uso em determinados contextos. Estudos experimentais também associam notificações a interrupções da atenção e indicam que desativá-las pode reduzir essas interrupções e o desgaste, embora os efeitos variem entre pessoas e situações.
Nas apostas, a incerteza tem um papel importante nesse processo. Depois de perder dinheiro, a pessoa pode sentir vontade de apostar novamente na tentativa de recuperar o valor. Essa dinâmica, conhecida como perseguição das perdas, pode ampliar a exposição ao risco.
O Ministério da Saúde também chama atenção para fatores como publicidade direcionada, características do design das plataformas, estímulos ao engajamento contínuo, recompensas imediatas, influência de criadores de conteúdo e microtransações, que podem favorecer padrões repetitivos de uso.
A questão também é social e econômica
O Banco Central estimou que empresas de apostas receberam, em média, R$ 20,8 bilhões por mês em transferências via Pix entre janeiro e agosto de 2024, envolvendo cerca de 24 milhões de pessoas físicas. Esses valores são transferências brutas, não perdas líquidas. O próprio Banco Central alerta para limitações da estimativa.
O estudo também identificou cerca de 5 milhões de pessoas de famílias beneficiárias do Bolsa Família que enviaram R$ 3 bilhões às empresas de apostas em agosto de 2024. O dado não prova que as apostas causaram pobreza. Ele mostra que a discussão precisa incluir renda, publicidade, crédito, expectativa de enriquecimento e desigualdade.
As mulheres realizam, em média, mais trabalho doméstico e de cuidado não remunerado. Segundo o IBGE, em 2018, elas dedicavam 21,3 horas semanais a essas atividades, contra 10,9 horas entre os homens.
Na Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, 14,7% das mulheres adultas relataram diagnóstico de depressão, ante 5,1% dos homens.
Esses dados não estabelecem uma relação direta com redes sociais ou apostas. Eles ajudam a lembrar que as decisões digitais acontecem dentro de condições concretas de tempo, renda, trabalho, cuidado e saúde.
Quando é hora de fazer uma pausa?
Alguns sinais merecem atenção:
dificuldade de parar, mesmo quando existe intenção;
perda de sono, concentração ou tempo de convivência;
irritação ou ansiedade quando se está longe do dispositivo;
tentativa de recuperar perdas apostando novamente;
uso de dinheiro destinado a necessidades básicas;
empréstimos, ocultação de gastos ou conflitos relacionados às apostas;
repetição do comportamento apesar do sofrimento ou dos prejuízos.
Um sinal isolado não é suficiente para estabelecer um diagnóstico. O mais importante é observar a presença de perda de controle, prejuízo e sofrimento. A Organização Mundial da Saúde reconhece o transtorno do jogo como uma condição caracterizada pela perda de controle, pela prioridade crescente das apostas sobre outras atividades e pela continuidade do comportamento apesar das consequências negativas.
Se as apostas estiverem causando problemas financeiros, emocionais ou familiares, é importante buscar ajuda em uma unidade de saúde, em um serviço da Rede de Atenção Psicossocial ou no atendimento disponível no município.
Criar um intervalo também é cuidado
Não existe uma regra única sobre o “tempo ideal de tela”. Uma forma de observar a própria relação com o ambiente digital é fazer algumas perguntas:
O que eu estava sentindo antes de abrir o aplicativo ou apostar?
Eu escolhi fazer isso ou fui conduzida por uma notificação, oferta ou impulso?
Como me sinto depois?
Esse comportamento está ocupando o espaço de algo importante para mim?
Que limite pequeno e possível posso testar hoje?
Medidas simples, como desativar notificações não essenciais, retirar aplicativos de apostas, estabelecer pausas e conversar sobre dinheiro com pessoas de confiança, podem ajudar a criar um intervalo entre o estímulo e a decisão.
Autonomia não significa estar livre de influências. Significa reconhecê-las e criar espaço para fazer escolhas mais conscientes.
Jornada do Cuidado 2026
É com esse convite que a Cruzando Histórias realiza a Jornada do Cuidado 2026 — Saúde na Era Digital: resgate sua essência.
30 de setembro, das 13h30 às 16h30, presencial na Casa CH: “Arquivo de mim: quem sou eu por trás das tendências?”, com Jéssica Moreira Sano;
1º de outubro, das 10h às 12h, online pelo Microsoft Teams: “Quem controla quem? A disputa entre você e seus dispositivos”, com Glaucia Luiz, e “Desconectar para se reconectar”, com Heloisa Santana.
A participação é gratuita. Mulheres maiores de 18 anos podem participar do encontro presencial, do online ou dos dois.
Entre algoritmos e tendências, escolha cuidar de quem você realmente é.





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