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Saúde na era digital: dispositivos, apostas e mulheres

há 1 dia
5 min de leitura

Saúde na Era Digital: resgate sua essência

Em uma rotina marcada por notificações, algoritmos e recompensas instantâneas, compreender como os ambientes digitais influenciam atenção, emoções e decisões também é uma forma de cuidado.


Você já pegou o celular para fazer uma coisa e, alguns minutos depois, percebeu que estava em outro aplicativo? Já sentiu vontade de recuperar imediatamente uma perda em um jogo ou aposta?


Essas situações não significam, por si só, que existe um problema. A tecnologia pode facilitar o acesso à informação, ampliar oportunidades e aproximar pessoas. O ponto de atenção está em perceber quando determinados ambientes digitais estimulam a repetição e começam a ocupar espaço demais na nossa vida.


Para as mulheres, essa conversa precisa considerar a sobrecarga de trabalho, o cuidado de outras pessoas, a pressão estética, a necessidade de produzir e a responsabilidade de fazer a renda da casa render. Cuidar na era digital não significa desaparecer da Internet. Significa recuperar a possibilidade de escolher como, quando e por que estar conectada.


O que os dados mostram sobre as apostas?

O Terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, o LENAD III, estimou que 17,6% da população brasileira com 14 anos ou mais apostou nos 12 meses anteriores à pesquisa. Entre as pessoas que apostaram recentemente, 32,1% mencionaram sites de apostas esportivas, as bets. O estudo estimou que 5,6% da população havia utilizado essa modalidade, o equivalente a mais de 9 milhões de pessoas.


Entre os apostadores recentes, 38,6% apresentaram ao menos um critério de risco ou problema, segundo a escala PGSI. O instrumento considera sinais como perda de controle, tentativa de recuperar perdas, problemas financeiros, estresse e culpa. Uma parcela de 4,4% atingiu a faixa compatível com provável transtorno do jogo.


Importante: o PGSI é um instrumento de rastreamento, não um diagnóstico clínico. Os dados mostram associações e comportamentos observados em determinado período. Eles não provam que uma plataforma ou um dispositivo causou adoecimento.


Mulheres e apostas: como interpretar os números?

No LENAD III, 12,0% das mulheres e 23,8% dos homens declararam ter apostado no último ano. Entre quem apostou recentemente, 28,9% das mulheres e 43,7% dos homens apresentaram ao menos um critério de risco ou problema.


Na pesquisa DataSenado Panorama Político 2024, cerca de 12% das pessoas entrevistadas disseram ter gasto com apostas esportivas em aplicativos ou sites nos 30 dias anteriores. Nesse grupo de apostadores recentes, 38% eram mulheres e 62% eram homens.


Esses números respondem a perguntas diferentes. O dado de 38% informa a composição do grupo de apostadores recentes. Não significa que 38% das mulheres brasileiras apostam, nem informa intensidade, prejuízo ou diagnóstico. As fontes também não dizem qual dispositivo foi usado.



Por que estímulos e recompensas podem influenciar decisões?

Uma forma simples de entender o funcionamento de muitos ambientes digitais é observar o ciclo pista ação retorno repetição.


Uma notificação, uma oferta ou um placar funciona como pista. Ao abrir o aplicativo, a pessoa encontra uma mensagem, uma curtida, um vídeo, um bônus ou uma possibilidade de ganho. Quando essa experiência é percebida como recompensadora, aumenta a chance de repetir o caminho.


Alguns recursos podem reforçar esse ciclo:

  • notificações, que interrompem a atenção e criam urgência;

  • recompensas variáveis, como curtidas, ganhos e resultados imprevisíveis;

  • feedback imediato, com placares, saldos, animações e atualizações em tempo real;

  • rolagem contínua e autoplay, que reduzem os pontos naturais de parada;

  • personalização algorítmica, que seleciona conteúdos e ofertas com base nas interações anteriores;

  • acesso permanente, que facilita agir no impulso.


Uma revisão da Nature Reviews Psychology descreve esses recursos como mecanismos que podem dificultar o controle em alguns contextos. Estudos experimentais também encontraram interrupções atencionais associadas a notificações e mostraram que desativá-las por um dia pode reduzir interrupções e desgaste, embora os efeitos dependam da pessoa e da situação.


No caso das apostas, a incerteza é central. Depois de uma perda, pode surgir a sensação de que é preciso apostar novamente para recuperar o dinheiro. Essa dinâmica, conhecida como perseguição das perdas, aumenta a exposição ao risco.


O Ministério da Saúde também chama atenção para publicidade direcionada, design de produto, engajamento contínuo, recompensas imediatas, influenciadores e microtransações como fatores que podem reforçar o uso repetitivo.



A questão também é social e econômica

O Banco Central estimou que empresas de apostas receberam, em média, R$ 20,8 bilhões por mês em transferências via Pix entre janeiro e agosto de 2024, envolvendo cerca de 24 milhões de pessoas físicas. Esses valores são transferências brutas, não perdas líquidas. O próprio Banco Central alerta para limitações da estimativa.


O estudo também identificou cerca de 5 milhões de pessoas de famílias beneficiárias do Bolsa Família que enviaram R$ 3 bilhões às empresas de apostas em agosto de 2024. O dado não prova que as apostas causaram pobreza. Ele mostra que a discussão precisa incluir renda, publicidade, crédito, expectativa de enriquecimento e desigualdade.


As mulheres realizam, em média, mais trabalho doméstico e de cuidado não remunerado. Segundo o IBGE, em 2018, elas dedicavam 21,3 horas semanais a essas atividades, contra 10,9 horas entre os homens. Na Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, 14,7% das mulheres adultas relataram diagnóstico de depressão, ante 5,1% dos homens.


Esses dados não estabelecem uma relação direta com redes sociais ou apostas. Eles ajudam a lembrar que decisões digitais acontecem dentro de condições concretas de tempo, renda, trabalho, cuidado e saúde.


Quando é hora de fazer uma pausa?

Alguns sinais merecem atenção:

  • dificuldade de parar, mesmo quando existe intenção;

  • perda de sono, concentração ou tempo de convivência;

  • irritação ou ansiedade quando se está longe do dispositivo;

  • tentativa de recuperar perdas apostando novamente;

  • uso de dinheiro destinado a necessidades básicas;

  • empréstimos, ocultação de gastos ou conflitos relacionados às apostas;

  • repetição do comportamento apesar do sofrimento ou dos prejuízos.


Um sinal isolado não fecha diagnóstico. O mais importante é observar perda de controle, prejuízo e sofrimento. Se as apostas estiverem trazendo problemas financeiros, emocionais ou familiares, procure uma unidade de saúde, um serviço da Rede de Atenção Psicossocial ou o atendimento disponível em seu município.


A Organização Mundial da Saúde reconhece o transtorno do jogo como uma condição marcada por perda de controle, prioridade crescente da aposta sobre outras atividades e continuidade apesar de consequências negativas.


Criar um intervalo também é cuidado

Não existe uma regra única de “tempo ideal de tela”. Vale perguntar:

  • O que eu estava sentindo antes de abrir o aplicativo ou apostar?

  • Eu escolhi fazer isso ou fui conduzida por uma notificação, oferta ou impulso?

  • Como me sinto depois?

  • Esse comportamento está ocupando o espaço de algo importante para mim?

  • Que limite pequeno e possível posso testar hoje?


Desativar notificações não essenciais, retirar aplicativos de apostas, estabelecer pausas e conversar sobre dinheiro com pessoas de confiança podem criar um intervalo entre o estímulo e a decisão.


Autonomia não é nunca ser influenciada. É conseguir perceber as influências e ampliar o espaço para escolher.


Jornada do Cuidado 2026

É com esse convite que a Cruzando Histórias realiza a Jornada do Cuidado 2026 — Saúde na Era Digital: resgate sua essência.

  • 30 de setembro, das 13h30 às 16h30, presencial na Casa CH: “Arquivo de mim: quem sou eu por trás das tendências?”, com Jéssica Moreira Sano;

  • 1º de outubro, das 10h às 12h, online pelo Microsoft Teams: “Quem controla quem? A disputa entre você e seus dispositivos”, com Glaucia Luiz, e “Desconectar para se reconectar”, com Heloisa Santana.


A participação é gratuita. Mulheres maiores de 18 anos podem participar do encontro presencial, do online ou dos dois.

Jornada do Cuidado 2026
FromR$0.00
30 de setembro de 2026 às 13:30 – 1 de outubro de 2026 às 12:00 BRT30/09 - Presencial | 01/10 - Online
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Entre algoritmos e tendências, escolha cuidar de quem você realmente é.

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