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O controle nas relações afetivas mudou de ferramenta, não de lógica

há 9 horas
5 min de leitura

A tecnologia transformou profundamente a forma como construímos vínculos afetivos.


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Ouça o artigoBia Diniz

Hoje, uma relação pode envolver compartilhamento de localização em tempo real, senhas, acesso a redes sociais e mensagens ao longo de todo o dia. Essas ferramentas podem fazer parte de relações saudáveis quando há escolha, reciprocidade e consentimento. O problema começa quando deixam de ser possibilidades e passam a funcionar como exigências.


É nessa fronteira, muitas vezes difícil de reconhecer, que se situa a Violência Facilitada pela Tecnologia entre Parceiros Íntimos (TFIPV, na sigla em inglês).


O que a pesquisa internacional encontrou


Recentemente, representei a Cruzando Histórias como uma das especialistas ouvidas em uma pesquisa internacional conduzida pela psicóloga e pesquisadora Nina Jane Patel, no âmbito do programa Abuso Não é Amor, de YSL Beauty. O estudo reuniu profissionais de organizações de 10 países para entender por que jovens de 16 a 24 anos têm dificuldade de reconhecer práticas de controle digital como formas de violência.


Infográfico com as quatro barreiras para reconhecer o abuso digital e a IA como ameaça emergente
Infográfico com as 4 barreiras para reconhecer o abuso digital e a IA como ameaça emergente

A violência raramente se apresenta com esse nome


Embora a pesquisa tenha como foco os jovens, seus achados dialogam profundamente com o que observo há anos trabalhando com mulheres brasileiras de diferentes idades, raças, trajetórias e configurações familiares, muitas delas mães.


A violência pode aparecer como uma mulher que começa a evitar amizades para não gerar conflito. Que sente necessidade de explicar constantemente onde esteve e com quem falou. Que tem suas conversas acessadas. Ou que, pouco a pouco, reorganiza sua vida para administrar as reações do parceiro. No ambiente digital, o monitoramento pode acompanhá-la onde quer que esteja, ultrapassar o fim da relação e alcançar suas amizades, sua imagem, seus dados e até sua reputação.


Por isso, compreendo a violência digital menos como uma questão tecnológica e mais como uma questão de autonomia. A tecnologia não inventou a posse, o ciúme ou o controle. Ela ampliou a capacidade de exercê-los. A pergunta mais importante é: quanto espaço uma pessoa ainda tem para escolher, discordar, mudar de ideia e preservar sua individualidade dentro daquela relação?


A linguagem da violência muitas vezes chega tarde


No Brasil, ainda convivemos com padrões culturais que naturalizam o controle sobre as mulheres: o ciúme excessivo como demonstração de interesse, a vigilância como cuidado, a renúncia feminina como prova de compromisso. No ambiente digital, essas referências ganham velocidade e alcance, mas carregam a mesma lógica.


Os jovens falam em relações “tóxicas”, ciúme, intensidade ou drama, mas nem sempre reconhecem coerção e perda de autonomia. Uma das contribuições que levei ao estudo foi essa: quando conseguimos dar nome ao que está acontecendo, o padrão pode já ter se estabelecido como rotina. E esse desafio não se restringe aos jovens. 18% das brasileiras ouvidas pela Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher só se reconheceram como vítimas quando foram apresentadas a exemplos concretos.


Infográfico com dados sobre violência digital contra mulheres no Brasil.
Infográfico com dados sobre violência digital contra mulheres no Brasil.

Os 9 sinais e a força da prevenção


O Abuso Não é Amor parte da ideia de que os primeiros relacionamentos são um momento estratégico para construir referências sobre confiança, limites, ciúme, consentimento e respeito. Os 9 sinais da metodologia tornam visíveis comportamentos muitas vezes confundidos com afeto. No ambiente digital, eles aparecem na exigência de senhas, no acompanhamento permanente da localização, no controle das redes ou no uso da comunicação como punição.


Os 9 sinais de abuso no ambiente digital: ignorar, chantagear, humilhar, manipular, agir com ciúme, controlar, invadir, isolar e intimidar.
Os 9 sinais de abuso no ambiente digital: ignorar, chantagear, humilhar, manipular, agir com ciúme, controlar, invadir, isolar e intimidar.

Minha experiência também me ensinou que aprender a se relacionar não termina aos 20 anos. Mulheres podem, depois de muitos anos, reconhecer pela primeira vez que determinadas concessões estavam custando sua autonomia. Homens também podem rever comportamentos que aprenderam como normais. Os jovens podem estar vivendo suas primeiras experiências afetivas, mas todos nós estamos sendo provocados a construir relações mais conscientes e saudáveis.


Prevenção não pode ser mais uma responsabilidade feminina


Historicamente, meninas e mulheres recebem a maior parte das orientações sobre como evitar riscos: reconhecer sinais, proteger senhas, cuidar das imagens que compartilham, buscar ajuda. Esse conhecimento é indispensável. Mas há uma contradição quando o gênero mais atingido pela violência é também convocado a preveni-la quase sozinho.

Se queremos mudar padrões, essa conversa precisa alcançar meninos e homens.


Precisamos falar com eles sobre consentimento e limites, e também sobre frustração, rejeição, ciúme, masculinidades e a expectativa de controle sobre a parceira. Prevenção é também oferecer a um menino instrumentos para reconhecer quando seu próprio comportamento ultrapassou um limite.


Isso é ainda mais urgente quando olhamos para o ambiente digital brasileiro. Uma pesquisa do NetLab/UFRJ com o Ministério das Mulheres analisou 76,3 mil vídeos da chamada “machosfera” no YouTube, que transforma desprezo e controle sobre mulheres em audiência e monetização. A SaferNet identificou 173 vítimas de deepfakes sexuais em instituições de ensino de 10 estados, todas mulheres. Não estamos discutindo apenas comportamentos privados. Há referências de gênero, poder e violência sendo produzidas em escala.


Famílias não podem carregar tudo sozinhas


Como mãe de um menino de 12 anos, essa discussão também me atravessa pessoalmente. Tenho consciência de que minha experiência parte de uma condição de privilégio. Muitas mães tentam proteger e educar seus filhos enquanto enfrentam jornadas extensas, desigualdade econômica, violência e sobrecarga de cuidado.


A pesquisa traz uma provocação importante. Em 9 dos 10 países, especialistas perceberam que a vigilância usada por pais e responsáveis pode ser incorporada pelos jovens como referência de cuidado. Isso não equipara monitoramento parental a abuso. Significa que a proteção precisa vir acompanhada de diálogo sobre autonomia, limites e consentimento, para que uma criança consiga, no futuro, distinguir cuidado de coerção.


O papel do poder público e das plataformas


O Brasil tem avançado nesse marco. São avanços relevantes porque reconhecem que segurança digital não pode depender exclusivamente da habilidade individual de se proteger. Estado, sistema de justiça e plataformas precisam participar, com prevenção, canais de denúncia, resposta rápida, proteção de dados e responsabilização.


Linha do tempo com a Lei 15.123/2025, a Lei 15.211/2025 (ECA Digital) e o Decreto 12.976/2026.
Linha do tempo com a Lei 15.123/2025, a Lei 15.211/2025 (ECA Digital) e o Decreto 12.976/2026.

As ferramentas mudam. As dinâmicas de violência, nem tanto.


Deepfakes, rastreamento e perfis falsos podem aumentar a escala do dano, mas continuam servindo a práticas que já conhecemos: humilhar, intimidar, isolar, vigiar e controlar. Por isso, não acredito que a resposta esteja só em ensinar jovens a usar melhor a internet. Precisamos ajudá-los a construir outras referências de relacionamento e criar estruturas sociais e institucionais capazes de sustentá-las.


Isso significa ensinar sobre autonomia e consentimento, envolver meninos e homens, apoiar famílias e educadores sem transferir a eles toda a responsabilidade, aprimorar políticas públicas, cobrar as plataformas e continuar oferecendo às mulheres linguagem e instrumentos para reconhecer o que foi naturalizado por tanto tempo.


A tecnologia continuará mudando. O nosso desafio é garantir que nossas referências de afeto, liberdade e respeito avancem junto com ela.


Citação de Bia Diniz: “Cuidado não é controle. Intimidade não significa acesso irrestrito. E uma relação vigiada não é uma relação segura.”
Citação de Bia Diniz: “Cuidado não é controle. Intimidade não significa acesso irrestrito. E uma relação vigiada não é uma relação segura.”

Precisa de ajuda? 

Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher, gratuito, 24h).

Em situação de emergência, ligue 190.


💔 Abuso não é amor



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