Destaques da Jornada do Cuidado 2026: Como resgatar sua essência na era digital
O autocuidado na era digital começa quando decidimos desacelerar o ruído constante das telas para resgatar nossa essência, priorizando a presença física, o afeto real e a escuta atenta das nossas próprias histórias.
A Jornada do Cuidado 2026, iniciativa promovida pela Cruzando Histórias, chegou à sua terceira edição reafirmando-se como um marco de acolhimento e fortalecimento para as mulheres. Alinhado às campanhas do Setembro Amarelo e do Outubro Rosa, o evento buscou integrar a pauta da saúde física e mental aos desafios da vida contemporânea, trazendo como tema central "Saúde na Era Digital: resgate sua essência" .
Em um cenário marcado pela aceleração e pela sobrecarga de estímulos virtuais, o encontro propôs uma pausa intencional para refletir sobre como dispositivos, redes sociais e algoritmos atravessam nossa atenção, autoestima, relações interpessoais e bem-estar emocional.
Confira a seguir como foram esses 2 dias de jornada, encontros e reflexões.
Dia 30/09 na Casa CH: Scrapbook, Arquivo de Mim
No dia 30 de setembro, a Casa CH, localizada no centro de São Paulo, abriu suas portas para o encontro presencial da Jornada do Cuidado. A vivência foi facilitada por Jéssica Sano, líder do projeto EscutAção, que conduziu as participantes por uma experiência imersiva de desaceleração tátil e presença real, criando um refúgio de escuta ativa longe das notificações digitais.
Durante o encontro, as mulheres participaram de uma oficina de construção de scrapbook individual. Através de recortes, papéis texturizados, cores e palavras, cada participante pôde materializar sua trajetória de vida e registrar memórias afetivas. A atividade manual serviu como um antídoto ao ritmo acelerado do ambiente virtual, permitindo que o toque no papel e o olhar nos olhos resgatassem o valor do encontro presencial.
"Foi muito intenso, visitei lembranças de grande felicidade, cheguei feliz e sairei feliz." — Erica F., participante.
Como destacou Jéssica Sano ao sintetizar o impacto da oficina, colocar a própria história no papel em um ambiente de escuta acolhedora permite que as mulheres redescubram sua identidade para além dos perfis virtuais. A vivência reforçou o poder do abraço, do pertencimento e do afeto compartilhado como pilares indispensáveis à saúde mental.
📸 Veja todas as fotos deste dia em: https://jdc26.cruzandohistorias.org/
Encontro Online (01/10): Saúde na Era Digital
No dia 1º de outubro, a programação seguiu no formato online, reunindo dezenas de mulheres de diversas regiões do Brasil. Com análises profundas e embasamento técnico, as especialistas convidadas trouxeram luz aos perigos invisíveis da tecnologia e aos caminhos para a preservação do bem-estar feminino.
A iniciativa ofereceu um espaço seguro de acolhimento e escuta ativa, voltado tanto para beneficiárias em busca de sustentabilidade financeira quanto para profissionais de empresas parceiras que enfrentam a sobrecarga da hiperconexão.
A abertura foi conduzida por Bia Diniz, presidente e fundadora da Cruzando Histórias, e por Jéssica Sano, psicóloga e líder da Jornada. Ambas destacaram que o cuidado com a saúde emocional é pilar indispensável para a autonomia e a inclusão socioprodutiva feminina. Bia destacou ainda que, a Jornada do Cuidado 2026, contou com o apoio fundamental dos parceiros mantenedores da organização: Odontoprev, DP World, Vagas.com e Amdocs.
"Não basta a inclusão. A gente acredita num futuro onde as mulheres estejam seguras, saudáveis, conseguindo gerar trabalho e renda, mas que consigam se sentir inteiras onde estiverem." — Bia Diniz
Painel 1: Conectadas, Mas Sozinhas — Relações Humanas e Violência Digital
A palestra de abertura foi ministrada pela Dra. Janara Kalline — professora associada da Universidade de Brasília (UnB) e chefe da Assessoria Especial de Comunicação Social do Ministério das Mulheres. Janara apresentou um panorama detalhado de como o ambiente virtual afeta a saúde mental feminina, desenhando o que conceituou como uma verdadeira "solidão arquitetada".
Para compreender a dimensão do fenômeno no Brasil — um dos líderes globais em tempo de conectividade diária —, foram destacados os seguintes dados:
91% das mulheres brasileiras estão conectadas à internet (frente a 89% dos homens);
80% das mulheres no Brasil utilizam redes sociais (frente a 65% dos homens);
A presença feminina no ambiente digital é massiva, mas a arquitetura das plataformas ainda reflete estruturas pensadas historicamente por e para homens.

1. A Arquitetura da Solidão e Cobrança Excessiva
As redes sociais operam por meio de uma lógica algorítmica de isolamento em bolhas. Em vez de promover conexões reais, a estrutura prioriza a exposição do eu e a busca por validação. Para as mulheres, essa dinâmica intensifica cobranças estéticas e comportamentais inalcançáveis — como a rotina obsessiva de acordar às 5h da manhã ou a romantização da submissão feminina no movimento tradwife (esposas tradicionais). Por ser desenhada para nunca ser atingida, essa performance gera esgotamento e um constante sentimento de inadequação.
2. Violência Digital e Silenciamento
A misoginia online manifesta-se em ataques organizados, linchamentos virtuais e discursos de ódio, gerando uma atmosfera de intimidação que resulta na autocensura de lideranças femininas. Janara ilustrou esse impacto com um depoimento marcante de sua pesquisa de campo em Belém: ao elogiar a articulação de uma líder de catadores de lixo — uma mulher negra de 60 anos —, ouviu dela que jamais se candidataria a vereadora, afirmando: "Eu não quero ser a próxima Marielle". Esse medo real expulsa mulheres qualificadas da esfera pública e da política.
3. Desinformação de Gênero
Conselhos de saúde sem comprovação, pressão estética disfarçada de "dicas de bem-estar" e o uso comercial do medo são estratégias do mercado e da indústria da beleza para gerar consumo contínuo. Informações distorcidas sobre menopausa, envelhecimento e tratamentos corporais sobrecarregam a tomada de decisão consciente, afetando a saúde mental e o orçamento das mulheres.
"Só há como se defender e criar realmente conexões valiosas na rede se a gente parar, se ouvir e se entender. Se uma apoiar a outra. A gente precisa pactuar conosco nas redes igualzinho os homens pactuam entre eles." — Janara Kalline
O fortalecimento das redes de apoio, do acolhimento e do pacto de proteção mútua entre as mulheres surge como o antídoto essencial para enfrentar a violência, a autocensura e a solidão no meio digital.
Painel 2: Quem Controla Quem? A Disputa Entre Você, Seus Dispositivos e as Apostas (Bets)
No segundo painel, a especialista em dependência tecnológica Ester Zomer (pedagoga e neuro psicopedagoga) apresentou os impactos do vício digital e das plataformas de apostas (bets). A fala foi estruturada em colaboração com os protocolos da psicóloga Glaucia Luiz (especialista em Dependências Comportamentais pelo IPq-USP e nome integrante do programa oficial do evento).

Cooptação de Jovens e Crianças
O ciclo da dependência tem iniciado precocemente, a partir dos 11 anos, por meio de sistemas de recompensa e compra de skins em jogos infanto juvenis populares, como o Roblox. Além disso, adolescentes têm enxergado as apostas virtuais como um "investimento" ilusório para obter renda rápida sem passar pelo mercado de trabalho tradicional, gerando quadros graves de endividamento precoce.
A Sobrecarga Financeira e Emocional sobre as Mulheres
Quando um familiar entra no ciclo compulsivo dos jogos, a conta financeira e o trauma emocional recaem diretamente sobre mães e esposas. São elas que assumem a gestão das crises, reorganizam o orçamento doméstico zerado por salários perdidos e sustentam a rotina familiar. Esse trabalho invisível de contenção gera quadros severos de ansiedade e depressão nessas mulheres.
O Vício como Doença e a Complexidade da Reabilitação
A dependência tecnológica e de jogos ativa os mesmos circuitos dopaminérgicos da dependência química, operando num ciclo infinito de gatilho e recompensa. Contudo, Ester fez um alerta crucial: ao contrário do alcoolismo ou da dependência química — em que o tratamento exige a eliminação total da substância —, a tecnologia não pode ser banida da vida moderna, pois abrange contas bancárias, trabalho e comunicação. Isso torna a reabilitação um processo único e complexo, que exige reinserção gradual e gerenciada.
Orientações Práticas e Ações de Contenção
Retirada Abrupta Temporária: Em momentos de crise aguda e abstinência, afastar o dispositivo imediatamente para estancar o dano, preparando o terreno para uma posterior reinserção monitorada.
Bloqueios Financeiros e de Conexão: Restringir o acesso a contas bancárias, solicitar o bloqueio formal de CPF para apostas e aplicar restrições de domínios diretamente no roteador da residência.
Acolhimento sem Julgamento Moral: Compreender o vício comportamental como transtorno psiquiátrico, eliminando discursos punitivos de que a pessoa joga "porque quer".
Rede de Atendimento Gratuito: Recorrer ao ambulatório do Instituto de Psiquiatria da USP (IPq-HC em São Paulo), aos centros de atendimento universitários de psicologia, aos CAPS e à rede básica do SUS.
"A gente precisa voltar a tomar o controle das nossas ações e dos nossos atos. O celular e a tecnologia estão aqui para nos ajudar, mas a gente precisa parar de deixar de ser controlado." — Ester Zomer
Painel 3: Desconectar para se Reconectar — Construindo Uma Relação Saudável com a Tecnologia
A palestra de encerramento foi conduzida por Heloisa Santana, socióloga e pesquisadora de relações humanas no trabalho, que convidou as participantes a saírem do piloto automático e resgatarem o valor do tempo presente.
Heloisa abriu sua reflexão com uma provocação direta: "Quanto da sua vida acontece enquanto você está olhando para o celular?". Dialogando com o conceito da Sociedade do Cansaço, do filósofo Byung-Chul Han, a palestrante explicou como migramos da disciplina para a exigência do desempenho contínuo. Nesse cenário, nos tornamos "algozes e empresários de nós mesmas", exigindo disponibilidade total e respostas imediatas, mesmo durante o período de descanso.

Redefinição de Autocuidado
O autocuidado autêntico não significa acrescentar mais obrigações à rotina (como rituais rígidos de skincare ou metas fitness estressantes). Autocuidado de verdade envolve retirar excessos, impor limites claros, aprender a dizer "não" e proteger o tempo de vida.
Para ilustrar a beleza da presença plena, Heloisa ressaltou a riqueza de pequenos rituais cotidianos, como resgatar os sentidos ao fazer uma refeição simples de arroz, feijão e ovo frito — observando as cores, o aroma e as memórias do prato — ou permitir-se lavar a louça no silêncio absoluto, sentindo a textura da água sem a necessidade de manter vídeos ou podcasts de fundo.
Prática recomendada | Como aplicar no dia a dia |
Desativar Notificações | Manter alertas visuais e sonoros ativos apenas para contatos vitais ou urgências familiares, silenciando aplicativos e grupos. |
Quebrar o Imediatismo | Estabelecer combinados de não responder mensagens de trabalho ou redes sociais instantaneamente, eliminando a urgência artificial. |
Refeição Consciente | Realizar ao menos uma refeição do dia sem telas por perto, ativando os sentidos para aromas, cores, sabores e memórias do alimento. |
Primeira e Última Hora do Dia | Não checar o celular nos primeiros 15 a 30 minutos ao acordar nem antes de dormir, preservando a higiene do sono. |
Momentos de Pausa Simples | Permitir-se intervalos de 5 minutos de silêncio ou tédio durante a rotina, sem recorrer ao celular como fuga rápida. |
"Tempo de tela é tempo de vida. A gente não precisa estar disponível o tempo todo. Autocuidado de verdade envolve fazer escolhas, impor limites e proteger aquilo que a gente não quer mais perder." — Heloisa Santana
Um convite à ação
Retomar o controle da sua jornada digital não exige transformações radicais do dia para a noite. Convidamos você a escolher hoje apenas uma das práticas apresentadas e aplicá-la em sua rotina diária.
Se você precisa de suporte profissional para reorganizar sua carreira ou cuidar da sua saúde emocional, a Cruzando Histórias disponibiliza canais gratuitos de atendimento para mulheres de todo o país:
EscutAção (Online): Atendimento individual de Orientação de Carreira e Acolhimento Psicológico, acessível para moradoras de qualquer região do Brasil.
Casa CH (São Paulo/SP): Acolhimento presencial individualizado às segundas e quartas-feiras, das 10h às 16h (Rua Barão de Itapetininga, 255, sala 209 — República).
Comunidade no WhatsApp e próximas agendas: Permaneça conectada para acompanhar as próximas iniciativas gratuitas da ONG, como o programa Impulsione Pretas e a campanha dos 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher.
Em meio a tantas influências, algoritmos e tendências, escolha cuidar de quem você realmente é.







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